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Festa, Território
e Saudade

Nas músicas de Bião

O calendário das festas populares

Nas músicas de Bião, as festas populares aparecem como um dos cenários onde Canudos se reconhece e se celebra para o mundo. Longe de serem somente um plano de fundo, as suas canções evocam momentos de um calendário que marca diferentes tempos: o da fé, da chuva, dos encontros festivos e da convivência. E é pelas festas, presentes nas letras e nas melodias, que o narrador volta para casa, encontra os amigos, dança forró, bebe, reza, paquera e reafirma que pertence àquele lugar.

 

Bião constrói as festas de Canudos a partir do movimento. As canções indicam a agitação das pessoas: “tô pegando a estrada”, “eu vou sair pelas ruas da cidade”, “danço treze noites”. Na festa, o corpo se entrega à celebração. A música funciona como base de sustentação dessa alegria. Bião apresenta ritmos e instrumentos como o forró, lundu e a sanfona. A festa é sonora, antes de qualquer coisa.

 

Ao mesmo tempo, essas festas são espaços de formação de fé e de devoção. Santos como Santo Antônio, São José e São Sebastião surgem ligados a promessas, pedidos e agradecimentos, mas também a brincadeiras e bebidas. O sagrado e o profano não são separados. As canções mostram um catolicismo popular sertanejo com tradições muito singulares de Canudos.

 

As músicas também revelam como as festas são uma ponte entre quem ficou e aqueles que partiram. Quando o eu-lírico volta de São Paulo, doido para chegar lá no sertão e promete cantar para o meu povo sobre a festa, a celebração vira motivo de retorno, história para ser narrada e promessa de reencontro.

 

Ao reunir reisado, trezena de Santo Antônio e celebrações em povoados como o Rosário, Bião cria um calendário das festas populares canudenses. Mais do que registrar os eventos, suas músicas mostram como essas festas organizam a vida coletiva, curam saudades e reforçam o laço entre fé, território e identidade. É a partir desse universo festivo que vamos mergulhar na alvorada e na trezena.

Alvorada de Canudos: a festa que celebra o povo do lugar

Em “Festa do Padroeiro”, Bião convoca os vizinhos, chama pelo povo, descreve o sair pelas ruas, o sereno da madrugada, a alegria da celebração. A música não é somente um retrato da Alvorada, evento que marca a abertura da Festa de Santo Antonio em Canudos, mas uma forma de fixar em versos, transformar em arte e, dessa forma, trazer para a eternidade aquilo que acontece todos os anos na madrugada de 1º de junho. O que Bião canta é o que o canudense vive.

Ao transformar a Alvorada em canção, Bião faz com que a festa se reafirme enquanto símbolo identitário de Canudos. A madrugada ganha melodia, o percurso vira narrativa e toda aquela celebração passa a poder se transformar em imagens no imaginário de quem está longe. Para os que migraram, a música é uma passagem de volta para casa. Ouvir Bião é poder caminhar pelas ruas, acompanhar o cortejo, sentir novamente os cheiros e gostos da festa. Dessa forma, a alvorada também fortalece a relação entre comunidade e território.

É no encontro entre música, rua e celebração que a Alvorada de Canudos ganha sentido. Mais do que abrir a trezena de Santo Antônio, ela abre um tempo de encontro entre o sagrado e o profano que se cruzam ao som da sanfona, do violão e da zabumba.

A seguir, a história da festa ajuda a compreender como uma brincadeira entre amigos se tornou um dos principais marcos da cidade e porque a música de Bião torna esse amanhecer mais completo.

Vista aérea da Alvorada de Canudos

Vista aérea da alvorada de Canudos - Fagner Maciel

Ainda da madrugada, enquanto parte da cidade dorme, outros acordam ao som de sanfonas, zabumbas e passos apressados e ritmados. A alvorada, uma das festas mais queridas do calendário local, nasceu como herança da “segunda Canudos”, quando a vida precisou se reorganizar depois que as águas do Cocorobó engoliram a vila antiga. Durante a trezena de Santo Antônio, entre 1º e 13 de junho, famílias e cooperativas assumiam noites na igreja e marcavam seus dias com procissões celebrando o padroeiro. Enoque Canário, um dos líderes da segunda Canudos, esteve entre os que resgataram essa prática para a Canudos atual, costurando a tradição, onde o tempo tentou colocar um corte.

Com os anos, algumas casas foram abrindo mão das madrugadas festivas, e o medo de ver a tradição morrer rondou a cidade. Foi quando um grupo de adolescentes decidiu não deixar que a alvorada se tornasse apenas uma memória feliz dos tempos passados. Em 1987, Genário Rabelo de Alcântara Neto (Geo), ex-prefeito da cidade, reuniu amigos e parentes para uma saída entre a noite do dia 31 de maio e 1º de junho, madrugada que encerra os festejos de Nossa Senhora de Fátima e inaugura a trezena de Santo Antônio. Bateram às portas do comércio pedindo contribuições, prepararam batidas de murici - bebida alcoólica à base de murici, fruto da árvore de mesmo nome -, e convocaram sanfoneiros, zabumbeiros e pandeiristas.

O cortejo era pequeno, mas cheio de animação. “Alguns dos primeiros que tocaram foram Zé Beraldo, Eronildes, Antônio Coutinho… Teve outros, mas não me lembro o nome de todos”, recorda Geo. O caminho, quase o mesmo de hoje, nascia na igreja de Nossa Senhora de Fátima, no acampamento do DNOCS, descia as ruas, passava pela Avenida Juscelino Kubitscheck e encerrava no cruzamento com a atual rua Dr. Acioli Araújo.

No começo, a festa era meio improvisada. Era coisa de amigo, mas mesmo sem constar nos planos, ela cresceu. A cada ano apareciam mais pessoas, mais vozes cantando e mais abraços. Com as despesas da festa subindo, a família Rabelo foi entrando na organização. Surgiu até um apelido para quem acompanhava o cortejo: “alvorantes”. É o apelido de quem leva um pedaço da madrugada nas costas enquanto dança e bebe pelas ruas da cidade. Esse levar nas costas já foi literal, pois, no início, havia quem carregasse um saco de bebidas durante o percurso. Dessa época até hoje, o sol sempre chega primeiro que a sobriedade.

Geo explica sobre o início da alvorada
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Com o tempo, a estrutura mudou. “Não lembro exatamente o primeiro ano do trio. Sei que antes eram mini-trios, que vieram por alguns anos. Depois chegou um maior, há praticamente 10 anos”, diz Geo. “Foi aí que a festa tomou outra dimensão: cresceu em público, cresceu em som. Deixou de ser só regional e virou coisa da Bahia e do Brasil”.

Canudenses celebram a 36ª Alvorada de Canudos - Márcio Varjão

O crescimento da festa, tanto no volume do som quanto no número de participantes, não mexeu na essência. “As atrações permaneceram basicamente as mesmas”, aponta Geo. Alguns sanfoneiros ficaram idosos, outros se despediram, mas o repertório continua sendo o que anima as pessoas sob o mesmo passo e identidade.

A essência da alvorada de Canudos
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É entre passos, o cheiro do dia amanhecendo, o gosto da batida de murici e a poeira que a voz de Bião pode ser ouvida. Geo não sabe ao certo em que ano o cantor passou a fazer parte da festa, afirma que faz pelo menos 10 anos. O tempo é o suficiente para o cantor fazer falta quando não está. “A alvorada sem Bião tem um vazio”, conta. Além da presença, pesam também as letras de suas músicas. Uma das mais emblemáticas é a de “Festa do Padroeiro”, onde a alvorada aparece como protagonista.

Na música, Bião começa chamando o povo a existir e festejar junto (“De madrugada vou bater na sua porta, se levanta que a alvorada começou”). A alvorada, que no calendário religioso de Canudos anuncia o início da trezena de Santo Antônio, aparece na canção como um ato de reunião comunitária: sair pelas ruas, acordar o vizinho, ocupar espaços públicos.

A alvorada não é somente uma tradição do lugar, é um elemento que fortalece a comunidade e traz o encontro entre fé, festa e carinho. O cansaço é relativizado (“uma noite não é nada”, se afirma na música de Bião, que traduz em versos o sentimento do povo), pois o que parece ser mais importante, é manter viva uma prática que liga o presente de Canudos à sua história.

De madrugada vou bater na sua porta/ Se levanta que a alvorada começou/ Eu vou sair pelas ruas da cidade, Cheio de felicidade, é assim que eu vou/​ Já reservei toda a minha energia/ Para cair na folia, na festa do meu padroeiro/ Levanta, povo, que uma noite não é nada, Sereno da madrugada tá molhando meu amor/ Levanta, povo, que uma noite não é nada, Sereno da madrugada tá molhando meu amor.”

Bião canta o povo de Canudos
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A alvorada avança pelas ruas da cidade e, quando a conversa dobra a esquina para falar sobre identidade, Geo é enfático: “Ser de Canudos na alvorada é ser um povo humilde e guerreiro, que sabe o que quer, feliz com pouca coisa. Um povo que mostra para a Bahia e para o Brasil sua capacidade de se reconstruir”. A festa também traz a lição de que a comunidade se faz no encontro.

“A alvorada representa a união de um povo. Independente das suas diferenças políticas, das crenças religiosas, o povo de Canudos se abraça e se emociona estampando na cara um sorriso contente. Apesar das dificuldades, o povo de Canudos é unido, é um povo que ama a sua história, a sua cultura e demonstra isso durante a alvorada pelas ruas da nossa querida cidade”, explica Geo sobre a festa

Público festeja durante a madrugada na alvorada de Canudos - Venicio Reis

Há tantos anos nas ruas, a festa traz ensinamentos que só podem ser vistos com o tempo. Crianças que ouviram sanfona na barriga das mães, hoje frequentam o cortejo com as próprias pernas. A tradição é construída devagar, ano após ano, pessoa por pessoa. Esse é um dos motivos de as memórias sobreviverem. Geo coleciona causos de outros momentos da alvorada e da cidade.

Geo relembra memórias das primeiras edições da alvorada
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Após 37 anos, a festa tem marcas próprias. O caminho é quase o mesmo, as pessoas são outras, algumas das vozes que cantam ainda permanecem, mas o sentido de celebração e partilha segue presente, mesmo com as mudanças. Toda madrugada do dia 1º de junho, enquanto parte da cidade está em silêncio, no mundo dos sonhos, em alguns dos quatro cantos do lugar, já é possível ouvir conversas e risadas. Quando as primeiras notas de Bião rompem o restante do silêncio junto com a explosão dos primeiros fogos, Canudos acorda, e todos espiam, nem que seja pela fresta da porta, o cortejo da alvorada passar.

Trezena de Santo Antônio: fé, forró e tradição

Depois que a alvorada abre o ciclo junino de Canudos, a cidade entra nos “treze dias de festa, de oração”, que Bião canta em “Festa do Padroeiro”. A cada noite, a rua da Igreja Matriz parece se tornar cenário de suas músicas: bandeirolas atravessando o céu, balões coloridos, fogueira simbólica acesa na calçada. Nos painéis espalhados pela rua, os nomes dos noiteiros se misturam a frases de devoção e pedidos para que Santo Antônio “rogue por nós”.

Decoração da rua da Igreja Matriz durante a trezena de Santo Antônio - Levi varjão

Os portões da igreja se abrem um pouco depois das 18h, e as pessoas chegam em duplas, trios e em família. Quase ninguém vem só. As pessoas são o que há de mais importante para a celebração religiosa e também para o forró que acontece na sequência. O que Bião canta em “Santo Antônio da Minha Terra” como arraiá que “me fez se apaixonar”, é esse encontro comunitário que se faz dos portões da igreja adentro.

Quando os fogos estouram, anunciando a chegada do ramo (bandeira de Santo Antônio), a cena se desloca para o interior da igreja. A banda de pífanos puxa a caminhada, abrindo caminho com triângulo, zabumba e flauta, enquanto os representantes dos noiteiros se revezam para carregar o ramo até o altar. O padre, Jeferson Santos, entra por último, cercado por coroinhas e acólitos, espalhando o cheiro do incenso de ervas. Ali, o rito se organiza com precisão: levanta, senta, ajoelha. A comunidade inteira sabe o ritmo de cor. Nas palavras do pároco, “entender a identidade de Canudos só é possível se nós entendermos a trezena, porque é nela que fé, memória e identidade se encontram”.

Para o padre essa fé está no modo de crer, a memória é uma junção da história do massacre, resistência e reconstrução; e a identidade canudense é, também, um resultado desse encontro. É por isso que o pároco insiste que não dá para separar cultura e religiosidade, pois uma se alimenta da outra. Em Canudos, a trezena não é somente um evento no calendário, é uma forma de existir. A forma como se reza, se canta, se caminha com o ramo, tudo isso é fruto de um longo progresso cultural, que vem desde a antiga fazenda com a capela de Santo Antônio, passa pelo massacre, a inundação e chega a Canudos atual.

Padre Jeferson explica a ligação entre religiosidade e cultura
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Quando a missa termina, o ramo passa às mãos dos noiteiros do dia seguinte e os participantes começam outra movimentação. Alguns ficam na igreja para conversar e tirar fotos, mas a maioria segue quase naturalmente para a lateral direita da igreja, onde o forró começa. É o momento em que os versos de “Festa do Padroeiro” - “Já reservei toda minha energia, para cair na folia, na festa do meu padroeiro” -, cantada por Bião, encontra a festa.

No palco pequeno, montado só para a trezena, Bião assume o comando acompanhado de sanfoneiro, zabumbeiro e baixista. Para o padre Jeferson, Bião é uma espécie de síntese da festa: “ele une na sua melodia e letra, poesia, história e fé”.

Em “Festa do Padroeiro”, o cantor explica a trezena para quem nunca pisou ali: são treze dias de festa e oração, pede que Santo Antônio proteja a cidade, e mais à frente, lembra que aquilo é “a cultura do nordeste brasileiro” e “a saga de Antônio Conselheiro”. Rapidamente, ele costura o santo, o beato, o genocídio e a festa, articulando elementos-base da identidade de um povo.

Bião, ele é tradutor das expressões de vida do nosso povo
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Casais dançando ao som de Bião no forró da igreja - Levi Varjão

Do lado de fora da igreja, o que padre Jeferson chama de dimensão profana da trezena se revela conciliável com o sagrado. O leilão, a quermesse e o forró não competem com a missa, eles ampliam o gesto de estar junto. O leiloeiro que grita, a família que doa para o arremate, os jovens que ajudam nas barracas, os casais que dançam ao som de Bião. Para o pároco, tudo isso é “expressão de alegria, de participação, de vínculo comunitário”.

Em meio a esses eventos, está a presença constante de Bião nas treze noites. A comunidade faz questão de que ele seja sempre a atração principal, ano após ano. Padre Jeferson relembra o período da pandemia, quando essa participação do cantor não foi possível em todos os dias.

O povo se sentiu despido da sua identidade de memória e cultura
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Ao fim da noite, quando o público grita por “mais uma” e Bião ainda puxa outras canções, a festa parece se recusar a acabar, e o músico também se recusa a ir embora. Mas, assim como na música, há sempre um retorno prometido: no ano seguinte, na próxima trezena. Para o padre Jeferson, valorizar a trezena é “reparar a história de Canudos”, reconhecendo que ali se guardam camadas profundas da história, cultura e identidade do povo.

Publico festeja durante uma das noites da trezena de Santo Antônio - Levi Varjão

A cada ano, as pessoas que celebram as treze noites de festas reforçam que o território de Canudos é extenso, é tudo aquilo que se move quando o povo se move. Ali, fé, memória e festa se misturam e fazem da cidade um personagem. É esse espaço simbólico, cultural e religioso que as canções de Bião ajudam a construir.

O território construído pelas
músicas de Bião

Nos mapas oficiais, Canudos pode ser definida em coordenadas, linhas, e a mancha azul que representa o açude. Nas músicas de Bião, esse mesmo lugar vai além da cartografia e é constituído por imagens, memórias, símbolos e sons. O território não é só cenário, é também personagem. O sociólogo jamaicano Stuart Hall (1932-2014) entende o território como um local onde as práticas sociais acontecem, e essas práticas, por sua vez, exercem um papel importante sobre o sentimento de pertencimento dos indivíduos a um grupo cultural. 

 

Quem reforça o conceito de território é Milton Santos (1926-2001), ele afirma que o território é o lugar em que desembocam todas as ações, todas as paixões, todos os poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem plenamente se realiza a partir das manifestações de sua existência. As canções de Bião conectam o canudense ao território cantado, o sertão, e convidam quem é de fora a conhecer o lugar.

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Estação Biológica de Canudos (Toca Velha) - Levi Varjão

O professor Josemar Martins, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), explica que a palavra “Sertão” vem de longe, de um imaginário medieval que nomeava terras distantes, poucos habitadas. No Brasil, essa ideia foi associada ao interior nordestino, ao semiárido, a um modo de vida.​​

Professor Josemar Pinzoh explica a origem da palavra Sertão - Levi Varjão

Quando Bião se encanta com o Vaza-barris, ele está descrevendo esse interior profundo de que fala o professor. As margens do açude, o pé da serra, é tudo localização que ativa o imaginário de quem nasceu ali ou aprendeu a amar o lugar. Para o professor e pesquisador da área de comunicação e música, Tobias Queiroz, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), é exatamente aí que a música regional ganha força. “Pensando música regional como aquela que está restrita a círculos limitados de divulgação e consumo, ela traz à tona as singularidades de uma região”, afirma. No caso de Bião, essas singularidades se ligam aos símbolos da cidade.

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Açude de Cocorobó visto da serra da 50 - Levi Varjão

Ao cantor o Sertão, Bião não identifica apenas onde Canudos está localizada, pelo contrário, ele atravessa a região como um todo. Josemar Martins lembra que ao percorrer o Sertão baiano, pernambucano ou de outros estados do Nordeste, é possível perceber semelhanças nas casas, nas roças, na criação de animais, na figura do vaqueiro. Nas músicas de Bião, essa semelhança aparece com os pássaros que cantam para anunciar a chegada do dia ou a mudança de clima, na flora e também nos modos de vida, como a forma de trabalhar.

Professor Josemar Pinzoh explica sobre a construção simbólica do Sertão - Levi Varjão

O território nas músicas de Bião também é feito de contrastes: seca e açude, fome e abundância, dureza e celebração. Em “Casa de taipa” a fome aparece como vilã. Em “Atrás da palmeira”, o mesmo sertão é rede para descanso, música e amor em noite de luar. O lugar não está parado em um tempo, nem noutro, ele se constrói nos ciclos de chuva e seca, trabalho e descanso, festa e luto, aspectos que Bião traduz a partir dos seus registros do local em forma de música. Para o professor Tobias Queiroz, a música funciona como um relógio que marca esse ciclos. Então, cada vez que um forró começa, por exemplo, inicia também um tempo de celebração — o Santo Antônio, a trezena — e o território se modifica.

TOBIAS - Esses elementos, esses ciclos, essas essa.MP3
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Esse território também se move. Muitos saem de Canudos e do Sertão por diferentes motivos e precisam se reencontrar em outros locais. Quem sai, leva um pouco do sertão na mala. Tobias enxerga a música como uma corda que segura quem parte. Por isso que os versos de Bião sobre as águas do açude emocionam os canudenses que estão nas capitais do país

A música, ela é em várias histórias da diáspora, e.MP3
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Açude de Cocorobó visto da galeria - Levi Varjão

As músicas de Bião que falam de açude, rio, serra, fauna, flora e modos de vida dão conta de detalhar o território de uma forma que os mapas tradicionais não conseguem. Além disso, há nas letras de suas músicas uma visão sobre aqueles que vivem e convivem com o local, o que amplia as suas representações e significados. Quando Bião canta, Canudos não é só um ponto no mapa, é um pedaço de quem escuta, é uma forma que quem está longe encontra de voltar para casa e matar um pouco a saudade.

Quando estou longe de casa
eu ouço Bião

A saudade que atravessa Canudos não cabe só na lembrança. Nas músicas de Bião, essa saudade ganha corpo com o nome de ruas, árvores, a água do açude ao entardecer e vira uma passagem de volta para casa, capaz de ligar quem foi a quem ficou. O conteúdo produzido e disponibilizado mais adiante emerge por meio da verificação de que, para muitos canudenses, partir é uma necessidade, e lembrar, a partir das músicas de Bião, é uma forma de pertencer e permanecer.

 

A saudade de Canudos pega carona Brasil afora e volta pra casa pela voz de Bião. Entre trechos das músicas “longe de casa”, “belo monte”, “pombinha branca”, “festa do rosário” e “terra querida”, ouvimos Camily Lopes, que vive em Salvador, e Matheus Campos, que mora em Aracajú, contarem como as canções permitem esse retorno sonoro ao lugar deles no mundo.

Quando estou longe de casa eu ouço Bião.MP3
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Ao final desse percurso, fica claro que as canções de Bião constroem um lugar simbólico onde Canudos se reconhece e se projeta. Suas letras e melodias ressignificam paisagens, recuperam memórias e contam histórias que o tempo tentou apagar. Ao transformar luta, festa, vida cotidiana, Sertão e pertencimento em música, Bião nos faz pensar sobre o que significa ser canudense. Assim, esta longform se encerra reafirmando que a obra do artista não somente fala de Canudos, mas participa da construção da identidade local.

Reportagens: Levi Varjão

Orientação: Geilson Fernandes

Desenvolvimento do Site: Álex Brandon

Este produto é um projeto experimental desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso da graduação de Jornalismo em Multimeios.

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