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A Canudos que canta

Memória, indentidade
e pertencimento

Em um estúdio não profissional, com poucos equipamentos, ou numa estrutura mais profissional, a música que sai do coração de Bião rompe o silêncio. O músico entra em transe, parece ouvir mais do que canta. É como se as águas do Cocorobó contassem a história que está submersa, como se o tempo trouxesse de volta aquilo que poderia ser esquecido. Entre uma nota e outra, Belo Monte, a vila de Canudos e a saudosa Pombinha Branca voltam a existir, é quase como se esses lugares pudessem se materializar mais uma vez.

Foram em diferentes espaços de produção que nasceram os dois álbuns que moldam a trajetória de Bião de Canudos - Canta Canudos (2002) e Matuto do Cocorobó (2006). As duas obras são fragmentos de memória que desafiam o esquecimento. As canções são uma tentativa de amarrar o passado com o presente, de transformar histórias e experiências de vida em sons, de transformar o Sertão de Canudos em poesia.

O início, em Canta Canudos

Álbum Canta Canudos

O primeiro disco de Bião nasceu do desejo de contar os horrores do massacre e as vivências do cotidiano canudense, vindo ao mundo em rima, ritmo e poesia. Lançado em 2002, com produção de José Alex Oliveira (Lequinho), Canta Canudos possui 11 músicas e 43 minutos de duração. Desse conjunto de canções, 10 são composições do próprio Bião, de modo que apenas “Reisado” não foi escrita por ele - sendo de autoria de Raimundo Monte Santo. O álbum soa como o registro de um povo que não aceita o silêncio e nem que sua história seja distorcida. Desde a abertura, a proposta é reerguer Canudos e trazer à tona aquilo que a guerra, as águas e o tempo tentaram apagar.

 

As canções que compõem o álbum são: Lamento de Dor; Esperança; O guerreiro; Periferia; Santo Antônio da Minha terra; Longe de Casa; Belo Monte; Luanda; Atrás da palmeira; Casa de Taipa e Reisado. Bião e Lequinho escolheram a sequência das faixas para contar a história do povo de Canudos do início. O primeiro passo é o luto e a luta da comunidade. Em “Lamento de Dor”, o genocídio cometido contra Canudos é uma cicatriz: “Massacre medonho, e o povo de Antônio jamais se rendeu”. A repetição martelada e insistente do refrão transforma a lembrança em posição de orgulho.

A fé também surge como um elemento de resistência de um lugar que se recusou a recuar, mesmo diante de um inimigo mais forte. A identidade canudense se anuncia pela história de uma comunidade que Bião preferiu cantar a partir da resistência, elemento que, as suas músicas, enquanto manifestação da cultura, também expressam. E, essa força para lutar continua viva mesmo com as dobras que o tempo fez, porque a letra reivindica o essencial “só queremos a terra pra plantar o grão”.

Apesar de ser o fio condutor do álbum, essa é uma das músicas que Bião menos gosta de cantar. “Prefiro não cantar muito a guerra. Gosto de deixar de lado o sofrimento e a dor. Ela sempre entra, mas prefiro outros temas”, afirma Bião.

Depois de toda a luta, vem a “Esperança”, com uma melodia que parece anunciar um novo tempo, deslocando o foco para o calendário da natureza do Sertão: “Maria, se alevanta... a acauã cantou, anunciando que vai chover”. Os pássaros (ribaçã, bem-te-vi, beija-flor) presentes - no Sertão e na letra - viram relógios afetivos, sinais de boas-novas, compondo, junto com a chuva, a promessa de vida e de amor, seja com o barulho e som dos pássaros, seja com a chuva, responsável por colorir, novamente, a paisagem do território de verde. O pertencimento à cidade que nasce de perdas, se articula aos elementos característicos do sertão e suas estações, se sustentando, ainda, na ética de trabalho do homem do campo: “minha mão já calejou de limpar o nosso chão...”

​Bião aborda em suas músicas as minúcias da vida sertaneja, atentado para os elementos e personagens do cotidiano, enxergando no dia-a-dia uma complexidade que muitas vezes é esquecida ou desprezada. “Acho que a memória do povo mais simples tem que ficar. Do roceiro, do homem do campo. Eu procuro passar para as pessoas como é o dia-a-dia do sertanejo”, declara.

Com “O Guerreiro”, a voz de Bião vai ao encontro do personagem-ícone quando se fala sobre Canudos e sua história - “quem era esse homem... era o conselheiro” -, o que é feito sem a sua transformação em um ser superior, evidenciando a sua condição humana. Com uma melodia que se aproxima do reggae, nessa música, o pertencimento e a identidade são compartilhados por meio da descrição de manifestações que emergem desde a origem do lugar, a partir das práticas comunitárias, como procissões, mutirões para construção de capelas e igrejas, uma forma de união em busca de um bem maior. A canção também reforça a importância histórica de Antônio Conselheiro e sua presença simbólica na cidade até a atualidade, onde monumentos e estátuas em sua homenagem estão espalhados em diversos pontos.

“O conselheiro já foi visto como vilão, como aquele que trouxe a guerra até o povo, numa época em que a história de Canudos era contada para os canudenses por outras pessoas”, explica Lequinho. O professor e historiador João Ferreira também relembra como o beato líder de Belo Monte era visto. “Quando comecei a estudar Canudos, tive muita

dificuldade. Ainda achei a ideia de um Conselheiro louco, matricida [pessoa que assassina a própria mãe], comparado a Lampião como um bandido. O cenário melhorou a partir da lei orgânica do município que obrigou o ensino da história da cidade nas escolas”. Com os anos, a figura de Antônio Conselheiro foi ressignificada para o lugar de herói sertanejo, como alguém que não só ousou sonhar, ousou liderar um modelo de sociedade justa ou construir “uma nova história”, sendo, portanto, um “guerreiro” como propõe a música de mesmo nome.

“A figura do Conselheiro tem grande importância para a identidade Canudense. A gente vê essa figura em vários lugares da cidade, por exemplo, no Mirante, no Memorial, na Praça João de Regis, ali no Restaurante Doce Mel, no Museu Casa de Vó Isabel, lá no Museu Manuel Travessa. Tudo isso vai ajudando na construção dessa identidade”, explica o historiador João Batista Lima.

Professor e historiador João Batista Lima

João Batista Lima, professor e historiador - Centro de Memória Urbana

O álbum, entretanto, não fecha Canudos sobre si: em “Periferia”, o sujeito que “pega quatro conduções” para conseguir chegar ao trabalho diariamente revela a extensão urbana da existência sertaneja em diversas partes do Brasil. Aqui, Bião canta não apenas a própria experiência em diferentes capitais do país, como citado em “A vida de Edmilson Batista Campos”, ele fala sobre a dificuldade que milhares de nordestinos do interior enfrentam historicamente ao migrarem para longe dos seus locais de origem em busca de desenvolvimento pessoal, financeiro e de melhora de vida.

Nas metrópoles, muitos deles encontram dificuldades por conta da distância que precisam percorrer diariamente com a carga da saudade e o peso da busca de ascensão social. Esse trânsito entre o interior e a cidade amplia a noção de canudense, emergindo, na música, o sentido de que ser de Canudos é levar Canudos consigo, mesmo na pressa.

“É um sofrimento você viajar 4 horas da manhã, pegar ônibus, aquele corre corre. Essa música é um protesto meu com aquilo que acontece sempre com o nordestino em São Paulo, nos grandes centros”, destaca Bião, que viveu essa experiência na pele.

Na sequência, o disco mergulha na festa como uma forma de dizer quem se é. A celebração, em “Santo Antônio da Minha Terra”, música ritmada como um forró, é uma forte expressão de identidade. Ao citar a armação do arraial com “as barraquinhas”, falar do movimento corporal no “lundu” e especificar o som que se ouve da “sanfoninha choradeira”, a canção traduz a emoção Canudense ao ver o mês de junho chegar com a festa de Santo Antônio.

 

A celebração é um modo de existir em comunidade que reúne fé, prazer, cultura e sobrevivência, aspectos que são também registrados na canção, que demarca mais uma vez um sentido de pertencimento e identidade, convidando outras pessoas a conhecerem não só a festa de Santo Antônio, mas “a minha cidade e o meu lugar”.

O professor e historiador João Ferreira Damião relembra a trajetória da celebração religiosa em Canudos. “Antônio Conselheiro era devoto de Santo Antônio, a cultura de celebração ao santo e a trezena vem desde de Belo Monte, é uma festa centenária”, retrato da cultura do local, composta por memórias da história do lugar, tradição incorporado pelas canções de Bião.

Professor e historiador João Ferreira Damião

João Ferreira Damião, professor e historiador - Redes sociais

Em “Longe de Casa”, música que vem logo a seguir, Bião retoma o sentido de movimento, apresentando as descontinuidades da história do povo sertanejo que, muitas vezes, tem que deixar o seu chão e a sua terra em busca de oportunidades e expectativas de uma vida melhor. A estrada, nesse contexto, aparece com um espaço de saudade e solidariedade, não de exílio. “Obrigado Maria, obrigado João... Obrigado, Boiadeiro” soa como um gesto de reciprocidade, a gratidão aparece como um valor que sustenta o canudense mesmo fora de sua terra.

 

A carona, a viola, a mochila arrumada, todos os elementos compõem a imagem de um sertanejo deslocado, mas jamais desenraizado. “Sou de Cocorobó”, frase presente na música, não é apenas uma forma de afirmar a origem, mas um sentimento que acompanha o corpo do canudense onde quer que ele vá. O caminho reafirma o pertencimento e torna o deslocamento um modo de fazer Canudos circular pelo mundo.

A saudade que está na letra existe até hoje, é a saudade de ter que deixar Canudos. De quando está fora, querer retornar rapidamente. À beira do asfalto representa a dor de quem deixa a cidade. Algumas pessoas me dizem que quando ouvem a música choram de saudade de casa”, relata Bião.

Quando “Belo Monte” chega, a obra desenha um mapa. Lugares e plantas - “Belo Monte, Alto Alegre”, “umburana de cheiro”, “flor de catingueira” - organizam um vocabulário do lugar que é uma certidão de origem. A música fala sobre os sobreviventes que foram levados para outras cidades do país após o massacre e também sobre as pessoas da “segunda Canudos” que viram seus lares serem engolidos pelas águas. Mas, aqui é cantado também um grito de esperança e de amor.

Braúna velha, flor de catingueira/ Lá no terreiro, umburana de cheiro/ Meu amor primeiro ainda me faz lembrar/ Aquele tempo em que, tardezinha quase escurecendo/ Meu corpo cansado, meus olhos querendo te ver pra te amar.”

“Essa música é muito importante até para pensarmos a preservação da caatinga. Ela traz árvores que são da região e nos convida a olhar para o sertão e entender como está nossa fauna e nossa flora”, afirma o professor João Ferreira. Além disso, a descrição dos elementos da fauna e da flora podem ser vistos também, como fragmentos de uma identidade, uma vez que as árvores e animais descritos não são de conhecimento de todos, mas, especialmente, dos sertanejos.

O amor também é abordado no álbum, como ocorre na música “Luanda”, quando se pede a volta de um amor, questionando por onde ele andarás, ansiando pelo seu encontro no “vaza barris” (rio que atravessa a cidade de Canudos), prometendo reencontros e a transformação do rio em local de desejo. Amar, aqui também é permanecer. Há mais romance no álbum com “Atrás da Palmeira”, música que dá repouso ao percurso, apontando que “Tem um ranchinho no alto da serra... Tem uma rede lá na varanda”, evocando, novamente, características e objetos da cultura de Canudos e do sertão (a rede, a varanda, a porteira, etc.).

Casa de Taipa” e mais um protesto contra a falta de cuidado do Estado para com a população pobre do Nordeste. “Os meus meninos não aprenderam a ler, vosmecê pode crer, nem mesmo o beabá”, enuncia criticamente a letra. O saber do lugar, apesar da ausência do Estado, é valorizado e aparece sem rodeios: “se pertence à natureza, você pode perguntar”. A canção também evidencia que o pertencimento do nordestino e canudense ao seu lugar é traduzido pelo seu trabalho, relações de parentesco, pelo acordar cedo e presença do som dos passarinhos ao amanhecer, em suma, por aquilo que falta e o que se tem.

O sertanejo é sofrido, mas é guerreiro, não se entrega, está sempre de pé” — afirma Bião.

Bião encerra o disco de forma festiva, com “Reisado”, música tradicional da folia de reis, manifestação cultural de várias partes do Brasil e sempre celebrada em Canudos, no dia seis de janeiro. Apesar das memórias dolorosas que abrem e atravessam o disco e os protestos que aparecem ao longo do percurso, o artista relembra que nem tudo são dores e que a cidade também precisa celebrar a própria existência.

Canta Canudos compõe um caminho que vai da memória ferida à costura de novos vínculos. A cada passo desse caminho, as canções incorporam marcas que fazem o canudense se reconhecer: fé que resiste, festa que reúne, território nomeado, a estrada que leva e traz. O álbum transforma lembrança em pertencimento.

A continuidade, em Matuto do Cocorobó

Álbum Matuto do Cocorobó

Quatro anos depois de Canta Canudos, Matuto do Cocorobó nasce como uma afirmação. Lançado em 2006, também com produção de José Alex Oliveira (Lequinho), o disco conta com 10 músicas, todas autorais e tem 38 minutos e 22 segundos de duração. Este álbum ainda possuí a política e o protesto em suas letras, mas é mais festivo, celebra mais a memória das pessoas e do lugar.

As canções que compõe a obra são: Matuto do Cocorobó; Coisas que mãe dizia; Festa do Rosário; Buchada do Zeca; Mocidade - Cocada de pilusca; Festa do Padroeiro; Meu dengo; Pombinha branca; Essência e Terra querida. Dessa vez, Bião e Lequinho resolveram não apenas partir de um protesto mas, além disso, de uma afirmação que evoca o pertencimento à cidade e aos seus elementos.

O “eu” que canta já se apresenta de cara: “sou matuto”, “sou pescador”, “sou camboeiro dos umbu”. Se antes a memória era ferida aberta, agora ela vira marcha de pertencimento. Bião assume outro papel, o de cronista do sertão, novamente capaz de eternizar personagens em suas músicas.

A faixa-título - Matuto de Cocorobó - é um manifesto. Entre as águas do Cocorobó e do Vaza-barris, o narrador legitima o lugar falando de si. O percurso de migração aparece (“viajei léguas no pau de arara”), mas o ponto de chegada continua sendo Canudos. O matuto, que em outros contextos virou uma caricatura, é aqui um sujeito político com um “grito de protesto”, que canta e se encanta no território e com o território, paisagem que aparece como critério de felicidade (“lá eu sou feliz”). A identidade canudense aqui se escreve pela autodefinição (“sou nordestino, sou velho guerreiro”) e também pelo rio e açude como lugares de vida. Segundo o professor e historiador João Ferreira, “O povo de Canudos defende o açude pela riqueza das águas. Um açude como esse é uma riqueza no Sertão”, afirma.

Quem tá lá fora acha que o matuto é esquecido, não conhece as coisas, não sabe nada do mundo. Eu fiz essa música para mostrar que o matuto não é isso que o povo de fora pensa. O matuto sabe das coisas, conhece seus direitos e seus deveres”, explica Bião.

​O disco segue a memória e entra na casa, na sala de parto e nas crenças populares. “Coisas que mãe dizia”, traz as frases de presságio (“rasga mortalha cantou em cima da casa, é noite mal assombrada, o que será que tá pra vim”) e também de proteção (as mãos de Dona Mariá, que fez o parto de quatro dos filhos de Bião, “pegando menino” e a reza que acompanha o nascimento). É religiosidade popular, que permite ver o tempo passar e dá nome ao medo e também à esperança. O mundo moral de Canudos aqui é apreendido em família, transmitido em ditos, bênçãos e rezas.

Além de arte, as músicas de Bião se tornam também documentos que fazem com que a memória de Canudos e das pessoas que vivem e viveram na cidade ecoem nas dobras do tempo. “A arte de Bião impede que certos personagens caiam no esquecimento, como dona Mariá, que fez o parto de centenas de crianças na cidade e hoje as pessoas não lembram mais quem era. Bião traz essas pessoas para a eternidade. Então, a boa arte é atemporal, nunca vai envelhecer”, reitera João Ferreira.

Da casa, o álbum vai para a rua. “Festa do rosário” e, mais a frente, “Festa do padroeiro”, indicam a cidade como um lugar de encontro. O “eu” da primeira canção (“Festa do Rosário”) sai “de mala arrumada”, e refaz o caminho da diáspora sertaneja retornando de São Paulo para Canudos, para o “seu sertão”, para “a festa de São Sebastião”. Nessas músicas, o calendário religioso é a agenda da memória. Trechos como “treze dias de festa” e a invocação à Santo Antônio (em “Festa do Padroeiro”), recolocam Conselheiro na cena, agora, na saga do presente, uma vez que às comemorações ao Santo, como já abordado, remonta à época de Belo Monte e do Conselheiro.

Nessas músicas, cultura, identidade e pertencimento se apresentam como ritos que se repetem no sereno da madrugada da alvorada, na procissão e no forró (evocados em “Festa do Padroeiro”). As festas figuram, assim, como uma política de pertencimento, onde se compartilham afetos e se fortalece a coletividade. “Misturar a reza com a festa não é difícil. A gente sempre vê, tanto lá no rosário, quanto na trezena, que tem a missa e depois o pessoal gosta de dançar um forró, tomar uma pinga, uma cervejinha. É comum aqui, ninguém nunca viu problema”, afirma Bião de Canudos sobre a mistura entre o sagrado e o profano nas músicas e nas festas.

Pessoas dançando ao som de Bião na trezena - Levi Varjão

Antes e depois das festas, há mesa posta e sorriso. “Buchada de Zeca” chama o povo pelo nome (Zé Pequeno, Raimundinho, Nininho...), convoca sanfona e pandeiro para o piseiro, e transforma comida em código compartilhado pela comunidade. Canudos se reconhece pela forma de repartir, pelo humor que aproxima (“gente paquerando as panelas, doidinho pra almoçar”, enuncia a canção). Se tem, assim, uma identidade e identificação construída por proximidade afetiva, onde todo mundo é de alguém ou leva alguém.

Em “Mocidade”, o passado aparece intermediado pela memória de objetos, sons, gostos e cheiros (a cocada de pilusca, a blusa bordada, o sapato apertado, a água de colônia, a “folhinha de manqueira”, o motor que era ligado por “Ciço Cardeal”), fixando a juventude vivenciada por uma geração de canudense por meio de marcas de uma época. A nostalgia aparece, na música, ao abordar pessoas e criar uma geografia humana com personagens locais que Bião eternizou: Ninha, Pilusca, Ciço Cardeal, Mané Bispo. É um documento afetivo, sonorizado, ritmado, musicado, que ao lembrar como se vivia, aponta para uma forma de lembrar com quem se viveu. Mais uma vez, nas músicas de Bião, Canudos se afirma nos detalhes que só quem é do lugar conhece.

No meio do disco, um pout-pourri que começa com “Meu dengo” e apresenta o amor em um forró de intimidade explícita (“me faz um chamego… E fala que me ama embaixo do lençol”). Aqui, Bião também relembra o primeiro disco e traz a memória de volta para “longe de casa” e as dores de deixar a cidade. A faixa encerra trazendo novamente o amor para o centro do palco, dessa vez, com “menino acanhado”, quando a afetividade não se isola nos lençóis, mas é pública (“me abraça e me leva lá no meio do forró”).

Para João Ferreira (professor e historiador), o que diferencia Bião de Canudos de outros artistas que compõem e cantam sobre a cidade é a vivência. “A vivência foi e é fundamental para ser usada como forma de pertencimento e de defesa do lugar. As músicas de Bião tem cheiro e sabor do Sertão.”

​O roteiro do álbum volta ainda mais para o passado e constrói a afetividade a partir dos lugares. “Pombinha Branca” (vila que os moradores da segunda canudos ergueram durante a construção do açude) faz uma lista de ruas do povoado (“Rua do Barro”, “Gogó da Ema”, “Rua do Chofé”), de vozes do rádio e de bilhetes de namoro. As repetições (“Pombinha branca, cachorro-quente”, nomes das ruas antigas) estão presentes para marcar e reafirmar a memória. Canudos se prova pelo que se lembra junto. Como registro e resgate da memória, as músicas e álbuns de Bião fazem esse convite. Relembrar os lugares é uma forma de guardá-los do esquecimento.

​“É uma homenagem às pessoas que viveram no local e quem viveu lá diz que lembra a partir das músicas. Não conheci quase nada do local, toda a composição foi em cima dos relatos de quem conheceu e morou por lá, eu ouvia e resolvi compor essa música”, explica Bião.

Os documentos sobre a Pombinha Branca são poucos. Como objeto de arte que registra o lugar, nós temos basicamente a música de Bião e a pintura de Carlinhos de Zé Bafute. Então, essa música tem um papel muito importante como fonte de preservação da memória de Canudos”, afirma o professor e historiador João Ferreira Damião.

​Já em “Essência” o “eu” é equivalente ao território: “sou araticum, ah, eu sou murici”, “sou velhos itinerários”, “sou marcas que ficaram”. A canção lista rios, árvores, bichos, gente, escombros e heróis do nordeste como Conselheiro e Lampião, e costura história, natureza e mito popular. Quando a voz diz “eu sou o que tenho, não sou o que perdi”, ela deixa de lado o trauma e fala da resistência. Canudos não se define pelo que falta, mas pelos afetos que existem. A identidade aqui evocada pela música é tudo que está vivo, seja fisicamente ou na memória.

Me sinto parte da caatinga, do Sertão, da terra, da cultura, de tudo que é da gente de Canudos. Fiz e faço parte de tudo”, explica Bião sobre a letra de essência.

O ponto de parada ou encerramento do álbum é “Terra querida”, que vem em primeira pessoa, para que cada canudense se identifique. “Canudos, Jamais te esquecerei, pois aqui eu sou rei, aqui é meu lugar”, é apresentado como um refrão que, de certa maneira, arremata e reafirma todos os elementos abordados no álbum. O orgulho (“nossa beleza”, “aqui é meu paraíso”, "aqui eu sou rei", enunciados que compõem a música) traduzem pertencimento, cultura e identidade, características que se transformam em um compromisso com o lugar. Ao mesmo tempo, como afirmação, a letra provoca o sentido de que a beleza que todos devem conhecer em relação à Canudos não é só a paisagem, é a comunidade, o modo de se reconhecer nos outros.​

“Essa vontade de voltar a Canudos que eu canto na música é coletiva. Todo mundo que tá fora, pensa em voltar, são poucos os que não querem. Já teve gente que me disse que ficou com vontade de vim embora depois de escutar a música”, relata Bião sobre o desejo de regressar à cidade que é cantado na música.

Matuto do Cocorobó desenha a identidade canudense como um circuito completo: pelo rio e açude, nas crenças, nas festas, na culinária, na memória da juventude, nos nomes das ruas. O álbum reafirma do começo ao fim o que é ser canudense.

Depois de tantos anos cantando sobre Canudos e para Canudos, a cidade é para Bião lugar de paz, esperança e resistência. “Canudos para mim é tudo”, conclui.

Bião recita poesia autoral sobre não deixar Canudos - Sávio Lopes

As diferentes Canudos nas duas obras

Em Canta Canudos, o tom narrativo surge da ferida e da lembrança. A voz canta aquilo que foi tirado. Uma fala que insiste em ser repetida para que a memória não se apague. Em Matuto do Cocorobó, o eu lírico muda para uma posição de afirmação identitária como declaração de pertencimento. No primeiro, há um testemunho, agora, há vivência e protagonismo.

A perspectiva temporal das duas obras acompanha as mudanças. O primeiro disco fala muito do “antes”, do passado, daquilo que antecede o ouvinte. O segundo fala de memórias recentes, vivenciadas por muitos, e também aborda o presente a partir do trabalho, do amor, das festas e da vizinhança. “Essência” é um ponto que resume bem isso: “eu sou o que tenho, não sou o que perdi”. A dor é deixada para trás e dá lugar a um presente de permanência.

A relação com o território também muda. Primeiro, a terra precisa ser simbolicamente reerguida. Depois, o território é celebrado: o Vaza-barris e o açude de Cocorobó como símbolos de pertença, a comida, as ruas, os apelidos dos conhecidos.

As duas obras se completam. Canta Canudos documenta a história e Matuto do Cocorobó traz o cotidiano de rezas, parteiras, festas, comida. O primeiro funda o lugar, o segundo povoa o espaço de gente. Os álbuns trazem uma narrativa que vai das feridas do massacre à esperança do presente.

Para o professor João Ferreira, a obra de Bião é sensível por ter uma característica particular entre as que cantam sobre Canudos. “Bião consegue traçar uma linha que vai da primeira à terceira Canudos. Os textos dele são verdadeiras aulas de memória. Ele nasceu para escrever”.

Bião contribui para que Canudos não morra outra vez. A identidade canudense, que no primeiro álbum se apresenta na resistência, no segundo se reafirma nas práticas compartilhadas.

Canudos continua Cantando

Minidocumentário "O povo canta Bião" - Levi Varjão

Entre Canta Canudos e Matuto do Cocorobó, há a história de um povo que insiste em existir. As músicas de Bião transformam o sertão em narrativa viva, onde o passado e a memória são raízes, como é relatado por alguns canudenses no minidocumentário destacado acima.

Os discos funcionam como lugares de memória, onde os temas que mais aparecem são território, festas populares e saudade. Bião constrói no seus discos um mapa de afetos sobre Canudos. As músicas dele têm um papel importante: manter Canudos cantando e contando a sua própria história, mesmo diante das tentativas de silenciamento.

Reportagem: Levi Varjão

Orientação: Geilson Fernandes

Desenvolvimento do Site: Álex Brandon

Este produto é um projeto experimental desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso da graduação de Jornalismo em Multimeios.

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